segunda-feira, outubro 01, 2007

§1. Filosofia de Ponta - O Levantar de manhã

O que pensamos quando nos levantamos todas as manhãs? O leitor já pensou bem na 1ª palavra que lhe vem à cabeça quando acorda de manhã? Ou na primeira coisa que vê? Ou no primeiro som que ouve? É um exercício fácil, basta colocar um bloco de apontamentos e uma caneta ao pé da cama, e apontar logo que acorde (de preferência, mesmo antes de ir usar o WC, se der tempo). Já agora, junte-lhe a recordação imediata que tem dos sonhos dessa noite. Só para compor o ramalhete. Garantidamente, o resultado pode oscilar entre o mais perfeito non-sense, e o mais completo retrato da realidade humana. Ou os dois ao mesmo tempo, quem sabe. Senão vejamos: A primeira coisa que ouço de manhã são os meus gatos a raspar a porta do quarto. Significa, em primeiro lugar, que fechei a porta, antes de me deitar. Em segundo lugar, quer dizer que os bichanos têm fome. Isto tudo, significa que tenho gatos, o que pode dizer muito sobre a minha personalidade, ou sobre o meu estilo de vida. Se eu tiver um cão posso ouvi-lo ladrar, a pedir para ir à rua, e isso quer dizer que as minhas manhãs podem ser até muito refrescantes, porque começam sempre com um passeio ensonado em pijama, pela fresca, para levar o cãozinho a fazer as necessidades à rua, passando pelo apanhar das mesmas para um saco, pôr no lixo, e voltar para casa para lavar as mãos. Se eu fizer isto assim, até sou uma pessoa civilizada, se não, sou uma javarda sem responsabilidade social nenhuma (enfie a carapuça quem quiser...). Se não tenho animais de estimação, ou tenho mas são dos que não batem à porta (pequenos roedores, peixinhos num aquário, répteis, insectos, um tamagoshi ou até mesmo um animal embalsamado), a primeira coisa que se ouve de manhã pode ser qualquer coisa, e normalmente vem da rua ou da casa dos vizinhos - obras, carros, assobios, despertadores, rádios, coisas a cair (e a partir), pessoas a escarrar glamorosamente nos seus WC, bébés a chorar, autoclismos... uma parafernália de sons das mais variadas origens, que mais dizem sobre o tipo de casa e de localização em que vivemos, do que sobre nós próprios. E, claro, destes sons depende a primeira coisa que nos vem à cabeça assim que abrimos os olhos para o mundo. E esta depende ainda de como temos o quarto em que dormimos. E do stress em que andamos, e ainda do que fizemos antes de adormecer. O quarto. Escuro como breu, desarrumado até ao tecto? O seu proprietário gostaria de ficar a dormir até ao meio dia, por isso, se acorda mais cedo, pensa "Bolas... já é de manhã...", ou coisa pior. Janela aberta, luz do dia a entrar às 7h da matina (sem ter sido por esquecimento de a fechar)? Ah, aí então temos um madrugador, que pensa "ora vamos lá, mais um dia!", ao mesmo tempo que se levanta da cama, com pulo ou sem ele. Mas aqui ainda temos uma variante: aqueles que programam o despertador para mais cedo do que é preciso, e gostam de deixar a luz entrar, para gozar aqueles 30 minutinhos de puro prazer que é o acordar lentamente para a vida. Sorna pura. Depois, o nosso primeiro pensamento do dia passa pelos sons - se acordamos estremunhados com uma barulheira infernal vinda de fora (Comboio, businas, rectro-escavadoras, uma vizinha que canta mal, berros, um buzzer insistente, música foleira, o Family Frost, anúncios de touradas e circos, uma banda de música ou zés-pereiras), acordamos irritados e a pensar que temos que mudar de casa rapidamente; se a barulheira vem de dentro de casa, acordamos ainda mais irritados, e ainda por cima apreensivos com a causa do barulho - alguma coisa correu mal, e aí o salto da cama é peremptório, assim como toda a manhã pode ficar arruinada, dependendo do estrago produzido e da possibilidade de culpar alguém. Mas o que ouvimos pode ser bom, suave e melodioso. O nosso despertador pode contribuir para isso, com a nossa música preferida, o nosso ente amado pode simplesmente sussurrar ao nosso ouvido coisas românticas, ou o nosso filho pode vir acordar-nos com um beijo. O ronronar de um gato com fome também serve. Latidos e lambidelas de cão, não obrigada, mas para quem gosta... Whatever. Se andamos stressados, acordamos a pensar nos problemas, nas urgências, nas chatices. É aborrecidíssimo, estraga, pelo menos, a manhã, e faz rugas e cabelos brancos. Mas acontece amiúde a toda a gente, até mesmo nas crianças, de quem se diz que nunca tem problemas. Faz parte da nossa existência sermos nós próprios a martirizar-nos com coisas que não conseguimos resolver durante o tempo em que estivemos a dormir - é uma fatalidade, dormir umas horas, poucas ou muitas não interessa, e acordar a constatar que o problema continua teimosamente na mesma, não se resolveu, apesar de estarmos a acordar para um novo dia. Nos meus tempos de estudante, a maior parte das vezes sonhava que estava a fazer os exames que tinha no dia a seguir, e acordava no alívio - durante 5 segundos - de já os ter feito. Depois era uma chatice ver que tinha que me levantar para ainda os ir fazer. O que fizemos antes de adormecer? Adormecemos frente à TV, a ler ou na internet (sim, há pessoas que levam os pc portáteis para a cama...), bebemos demais, fizemos amor, adormecemos ao lado de um filho com insónias? às vezes, os próprios sonhos dependem disso, mais ainda a maneira como acordamos. Por exemplo, se adormecemos no sofá em frente à TV, acordamos cheios de dores nas cruzes, e pensamos "gaita para isto!"; Adormecer depois de fazer amor pode trazer um acordar cheio de mel (acordamos ao lado do nosso ente amado, e vivemos aquela sensação de profundo conforto do sentimento do amor, e pensamos "Amo-te"), ou não, dependendo do contexto em que aconteceu (quem nunca ouviu contar aqueles casos do famoso "Credo!! Mas quem é esta(e)?!" ). Adormecer a trabalhar, na internet ou a ler pode ser penoso, porque normalmente acordamos em cima de qualquer objecto menos confortável, e temos a pele vincada e magoada, e isso pode doer. Adormecer a tentar adormecer uma criança, pode trazer um acordar muito ternurento, ou então também pode gerar um acordar súbito, se a criança acorda primeiro e calha de se assustar... Os sonhos, esses, há muito quem os tente interpretar, mas eu não percebo nada disso. Raramente me lembro do que sonhei, e quando me lembro é mau sinal, porque foi um pesadelo, e acordei sobressaltada e a pensar em coisas terríveis. Detesto quando isso acontece. Mas influem na nossa maneira de acordar, os sonhos. Para quem se recorda sempre deles, podem determinar um dia cheio de positividade, ou um dia péssimo. Se sonhamos com coisas boas, só podemos esperar que o nosso dia seja assim, na mesma medida; se sonhamos com coisas más, temos que passar o dia a evitar que aconteçam coisas dessas, que é especialmente possível que aconteçam, dada a nossa propensão para o negativo. O Feng Shui (China), é uma arte que estuda a análise da energia ou força viva que existe no universo, na natureza e nos objectos, e pode influir na nossa maneira de acordar de manhã. Um posicionamento correcto do quarto e seus objectos pode afastar o negativismo e fazer-nos acordar de manhã a pensar em coisas boas. Para mim, os quartos deviam ser todos voltados para Nascente, para que se possa acordar com a luz do sol da manhã. Mas nem todas as casas permitem isto, já se sabe. E nem todas as pessoas se levantam a horas de ver o sol despontar de manhã - há quem se levante bem mais cedo, e há quem se levante bem mais tarde. Acordar ainda de noite é aborrecido para o cidadão normal, mas uma necessidade profissional para muitos - quando se torna um hábito, calculo que não trará negativismo, não sei. Todas as vezes que tenho que me levantar ainda de noite, acordo com um mau feitio monumental, a pensar em esganar alguém, e por isso não faço isso muitas vezes. Quem não gosta de levantar cedinho, com os primeiros raios de sol? Ok, muita gente não gosta, prefere ser acordado com a expressão "ACORDA; ANDA ALMOÇAR!!!!". São gostos. Pelo menos assim, acorda-se a pensar em comida, até que nem é mau. Seja como for, pelo menos para mim, a maneira como se acorda, o que se pensa, o que se ouve, influi em muito no que se faz, e como se faz, a seguir. Tal e qual como quando se começa uma nova vida - o que fizemos antes vai determinar o que vamos fazer depois. Mais, o perfil do indivíduo pode ser maioritariamente caracterizado de uma maneira, mas este pode experienciar, em diversas fases da sua vida, outras. Eu posso ser uma pessoa muito calma, e ter um acordar sempre bem-disposto, mas posso ter dias em que acordo com a telha. Acontece, somos humanos, e complicados, por alguma razão.
(c) Bluerussian

terça-feira, setembro 25, 2007

A dor da Culpa

Mentes perversas, consciente obscuro

escondem em si a mentira de fingir a dor;

enganam o incauto com a docilidade de anjos,

caindo na graça da solidariedade cega

daqueles que não observam o que não se vê.

Lágrimas de água morta,

de chuva ácida,

que poluem a alma dos que querem ter fé;

Palavras de falsa esperança,

que impregnam o ser, dominam-no,

e o fazem mover consoante a maré dos seus intentos.

Vis intentos...

A expressão seca, de cera feita,

da mãe que perde um filho por querer,

querendo esconder de todos a dor da culpa,

disfarçando-a de dor da perda.

Dois mundos,

o mundo vilão, ardiloso e sujo,

de quem quer esconder e enganar,

e o mundo crédulo, solidário e generoso,

de quem crê na bondade das intenções.

Pobre criança.

Quisera o destino que tivesse uma vida diferente,

uma família diferente,

e ainda hoje sorriria frente a uma montra de brinquedos.

(c) Bluerussian

quinta-feira, junho 28, 2007

Só

Uma só lágrima,
única e dura,
corre pelo rosto sulcado, lamacento,
da vida que foge por entre as mãos.
Dias que se somem,
no nevoeiro denso do tempo,
escoando por entre as vagas do degredo,
trazem a solidão,
por entre as gentes que se acotovelam em desvario.
O esquecimento de quem existe,
o certo, e o errado,
o desamor,
o azar e a sorte,
torcem e dobram a existência de cada um,
deixando de olhar nos olhos das pessoas,
e de antever os seus anseios e mágoas.
A incúria,
ou a vã glória de ser,
apagam o existir pleno,
extinguem a bondade da alma.
Já não vemos nos outros um semelhante,
Já não tentamos antever o seu sofrimento,
nem sequer o tentamos ajudar,
antes viramos as costas antes que nos peça:
"Ajuda-me!"
Bastava olhar-lhe nos olhos.
Bastava sentir-lhe o peso dos ombros,
e da alma,
bastava querer.
(c) Bluerussian

domingo, junho 24, 2007

O vento que passa

Ventos de nortada

varrem o sentido do espírito,

corroem a dura camada de bondade,
instalando o caos da descrença.
Sociedade fútil, injusta,
carcereira de sonhos e vontades,
pessoas cinzentas e perdidas,
crianças ingratas,
que magoam deliberadamente
aquilo que deveriam curar.
Perdido, o espírito vagueia,
por entre a pedra íngreme,
fria, e dura,
rasgando a sua ténue existência
nas escarpas da Humanidade.
Perde-se. Afunda-se.
Deixa de existir.
Morre.
Não renascerá, porque é uma Fénix cansada
que desistiu de ser quem era.
(c) Bluerussian

terça-feira, junho 05, 2007

Myra # 6 Jornais e maçãs

O que há de especial na mudança de uma vida é a incerteza do futuro. Por muito que se programem as coisas, qualquer grão de areia pode mudar o curso do destino, ou simplesmente travá-lo. De qualquer modo, a vida traz cenários que impoem a mudança, e muitas vezes essa mudança é uma fuga. Ou não.
- Myra? – A voz de Ann era sumida, mole.
- Diz, Annie. – Myra falava num tom sonolento, também. Eram 10 horas da manhã, e Myra tinha-se levantado cedo, para continuar a sua busca nos classificados do jornal. Ann acordara, levantara-se da cama e viera até à sala, encontrando Myra praticamente a dormir em cima da mesa e das folhas de jornal espalhadas.
- Tão cedo? Isso é que é vontade.... Eu sou incapaz de ler as letras de um jornal antes das 11 h da manhã, e de um café bem forte.
- Deixa, que eu estou aqui perdida de sono, Ann. Mas não tenho outro remédio, tenho que me despachar a procurar, e encontrar emprego, senão a coisa corre mal. Tenho que me pôr aí na rua a calcorrear portas.
- Não pensaste a sério na proposta do Frank, pois não? – Ann sentou-se à mesa, em frente a Myra, roendo uma maçã.
- Não é que não tenha pensado – disse Myra - mas, de facto, não me pareceu que ele estivesse a falar a sério.
- E porque não estaria? Se ele te disse para lhe mandares o teu currículo, é porque há essa possibilidade, My.
- Não sei... Bem, tu lá sabes. Mas pareceu-me mais que ele estava só a tentar agradar-te. – Myra esboçava um sorrisinho maroto, ainda que sonolento, e piscara o olho a Ann.
- MYRA!!! – disse Ann, com a boca cheia de maçã.
- Ah, pois é... amiga, o homem esteve a fazer-se a ti o tempo todo. Afinal, confessa-te lá à tua amiga: - e tomou um tom exageradamente coloquial – o que se passa realmente entre vocês, indivíduos de sexo oposto, livres, desimpedidos e disponíveis?
- Nadíssima!!!!! – Ann abanava a cabeça, em sinal negativo - Absolutamente nada, minha cara My. Rien de tout. Niet. Nein. Deixa-te disso. É como diz o outro: Vai à volta, que por aí não passas....
- Pois, pois. Porque não admites?
- Porque não tenho nada para admitir. Não inventes. E mais: o Frank tem este tipo de atitude com toda a gente.
- Calculo... especialmente moças giras e cheias de bom gosto. ... ihihihihih
- Mas não só, minha cara. Lá no trabalho, toda a gente o acha um convencido, um atiradiço.
- E tu não, claro....
- Nem por isso. Quando o conheci, confesso q era a imagem que ele passava, mas com o passar do tempo, e não foi preciso muito, acho só que ele tem uma auto-estiima acima da média. Aliás, ele tem motivos para isso, não achas?
- Ééééééé.... tu acha-lo um giraço cheio de pinta, certo? E bem sucedido, e inteligente, e até posso imaginar que achas que por baixo da casca de garanhão, está um homem carinhoso, e sensível . – Ann voltou a abanar a cabeça, em sinal de desagrado. Achava desnecessária a ironia de Myra – Não te chateies, Annie. Os homens têm destas coisas – às vezes enganam: porque não poderá ser este um caso de sensibilidade encapuçada de soberba? Estou a falar a sério. Mas diz-me lá: o rapaz está mesmo sozinho no mundo ou quê?
- Vãs ironias, amiga. Com o tempo vais perceber o mesmo que eu em relação ao Frank. Tu vais ver.
- Pronto, pronto. Hei-de ver, sim senhora. Mas como é? Temos solteirão militante, ou trata-se de um sofredor crónico, rejeitado pelas mulheres? Predador ou presa?
- Caramba, da maneira como poes as coisas, parece q estamos a falar de um animal selvagem....
- Bem, dependendo do ponto de vista, se fosse até não deixava de ser abonatório em favor dele..... uiuiui!
- Tarada....
- É a vida... e a abstinência prolongada, também....
- Ora, abstinência... tu, linda e maravilhosa, desempoeirada e inteligente... puseste o cinto de castidade porque quiseste!!!
- São opções, amiga.
- Não contesto. Aí, tu é que sabes. Mas não desististe dos homens de vez, pois não?
- Não. Só estou a fazer um intervalo. Mudar de vida também significa fazer um reset nesse âmbito. Quero tudo novo. Restart.
- Ok. E porque não dar uma abébiazita aqui ao nosso amigo Frank? Faz o teu género, que eu sei.
- Ehehehehhehehe... e o teu também..... não inventes. Ambas sabemos que o moço, a ser solteiro, não vai ficar assim muito tempo. Não a olhar para ti daquela maneira, nem com essa tua disponibilidade para lhe enlevar as qualidades. ..
- MYRA!!!! Continuas a delirar. Mais: Para tua informação, o jantar de ontem foi por tua causa, e eu já te disse isto...
- Ora, ora, por minha causa... boa desculpa!!! - Myra ria-se.
- Espera um segundo – e levantou-se – só por seres maldosa, vou mostrar-te a mensagem que ele me mandou depois de sair daqui, ontem à noite – e saiu, em direcção ao quarto, para ir buscar o telemóvel.
- Ai – Myra ironizava – aposto que é uma mensagem a dizer que se apaixonou perdidamente por mim, e que hoje, impreterivelmente, ia pedir-me em casamento!!!!!!!!! - Não gozes... – Ann respondia-lhe do quarto.
- É, e hoje, aparece aí antes de almoço, estaciona o seu cavalo branco lá em baixo no poste da paragem do autocarro, e lá vem ele por aí acima, botas até ao joelho, collants e calções de balão, colete e boina à principe, com pena e tudo, pedir a minha mão em casamento, ehehehheeh!!!! – Myra ria com vontade.
- Myra, - Ann voltara, com o telemóvel na mão – agora era bem feito que fosse isso mesmo. Só para calar essa tua ironia... Ora vê lá isto e diz-me lá se o assunto é comigo!!!!!! – e estende o telemóvel a Myra, que leu o que estava no ecrã:
“Olá. Excelente jantar. Especialmente a companhia. Gostei muito da tua amiga – é mesmo solteira? Diz-me que sim. Era realmente uma pena se não fosse. Liga-me hoje para tomarmos, TODOS, um cafézinho..... BJ”
- Não posso... – Myra abria a boca de espanto.
- Ai pois é, amiga. Calas-te, agora?
- Mas... ele não me ligou nenhuma o jantar todo!
- Parece-te. Se o conhecesses, tinhas percebido que o rapaz tinha estado a observar-te o tempo todo...
- Tchééééé, o malandro!!!
- Eheheheheh, pois.
- Bem. Eu também o achei giro, e simpático e isso tudo. Mas q faz um parzinho tão lindo contigo, lá isso faz!!! – e piscou o olho a Ann.
- Não, Myra, não vás por aí. Acredites ou não, não ia dar certo, com ele.
- Hummmm.... engano-me, ou isso já esteve para ser e não foi?
- Não. Nada disso. Simplesmente não há click entre nós.... não se passa nada.
- Click?
- Sim, Myra. Aquela coisa que nos faz imaginar uma pessoa na nossa vida assim de uma maneira mais ... interventiva. Aquilo q faz arrepiar e dá tremeliques. O Frank é giro, inteligente, um pão, mas... não há click. Gosto dele como um amigo. Só isso.
- Pena. Era capaz de te fazer bem.
- Eu também estou no meu break, Myra. Foi muito tempo.
- Eu sei. E... – e foi interrompida pelo telefone de Ann.
- Sim?- Ann atendera logo – Ah, Olá, bom dia! Estávamos a falar de ti .– Myra percebera que Ann falava com Frank, e arregalara-lhe os olhos – não, não temos nada combinado. Tens alguma sugestão? – e Ann piscava o olho a Myra – acho esse óptimo! A que horas? - Myra franzia o sobrolho – muito bem. Então até logo! Beijo, outro da Myra! – e desligou – Myra, vai vestir-te. Vamos almoçar fora.
- Frank, certo?
- Certíssimo. Desejoso de te ver de novo. Aposta aí na produção, que o homem está com saudades.
- Quem é que está a ser irónica agora????
- Prova do teu próprio veneno, prova! E vai mas é vestir-te, que eu também estou a ir.
- Mas... onde, e quando?
- Um restaurante óptimo, e agora. O Frank vem buscar as damas.
- E vamos de cavalo branco, é? Cabemos os três?
- Myra.... não comeces....
- Ah, ok, claro, ele traz o coche.... que parva que eu sou, valha-me Deus... – e Ann atirou-lhe uma almofada, já ela corria para o quarto.
Bluerussian

A ânsia

Alma grande, mundo vasto,
ignorância sedenta de saber mais,
Vício discreto, droga líquida, pura,
que afoga a mágoa do que não supera
o fracasso de ser mortal.
Ah!, se a alma soubesse,
se o mundo parasse também,
se a sede se calasse...
A lágrima de dor que corre,
o suspiro que rasga o peito,
cessariam face ao entendimento,
claro, objectivo, evidente,
pelo qual se deduz que o mundo não é tudo,
nem é nada, sequer,
comparado com a magnificiência,
a plenitude, a graça e a beleza

do Universo.

Vida, alma, morte, saber,

tudo resulta, a seu tempo certo,

na existência do ser frágil humano,

que busca, mesmo sem saber,

mas sabendo - o seu próprio, e inelutável, fim.

Bluerussian, Junho 2007

terça-feira, maio 15, 2007

Para Ti

Doce olhar azul pequenino,
Alvura calma de uma pureza bela,
surges no mundo e o mundo se curva
perante a luz terna que trazes contigo.
A Paz que emana de ti,
vida em botão a despontar,
traz a esperança de um futuro,
a alegria da manhã de sol,
fresca e luminosa,
perfumada de mil flores,
que inunda os sentidos daqueles que te amam.
Agarras a vida em cada segundo,
aprendes, observas, e sorris,
e o mundo é tão grande,
tão vasto,
que se torna o teu tapete de brincar.
Vive, sorri sempre,
Porque o mundo existe para ti.
Bluerussian
(Dedicado à minha afilhada - parabéns pela Luz que recebeste, Sofia)

Não estava esquecido

Bem, realmente, está mal deixar a criação abandonada. Não a esqueci, só o tempo tem sido pouco, e a inspiração tem que ser usada para outros items. Mas, de facto, há que regressar à linha, e continuar aquilo que se começou. Doravante, o regresso.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Água pesada

Água pesada da chuva que cai
peso leve de véu molhado e triste
nuvem negra que tarde se faz alva
lágrima que corre pelo rosto
olhar enevoado de neblina rude
alma cerrada de raio e tempestade
esperança no horizonte
aguarda a bonança que se esconde.
Bluerussian

terça-feira, setembro 05, 2006

Myra # 5. Frank

Passaram-se uns dias, durante os quais Myra estivera a arrumar as suas coisas em casa de Ann. De facto, sem a (ex) cara metade de Ann, a casa era definitivamente maior. Só agora Myra havia reparado que ele enchera a casa de tralha, enquanto lá esteve...
Com os seus pertences devidamente organizados, muita conversa posta em dia, e uma vontade doida de sair em busca do seu futuro, Myra comprara vários jornais, para poder procurar emprego. Depois de ler as notícias de alguns deles, espalhara os cadernos de classificados em cima da mesa da sala, e começou a seleccionar os mais interessantes e os menos interessantes, com marcadores diferentes.
Era um final de tarde morno, e Myra sentia-se sonolenta, especialmente depois do lanche que improvisara há não mais que meia hora; ouviu a porta, era Ann, chegada do trabalho.
- Olá, My. Ena, já estás aí em força a procurar emprego!! que tal? Muita coisa?
- Boas, Annie. Mais ou menos. Nada de extraordinariamente interessante, mas muita coisa para desenrascar.
- E logo tu, que já fizeste um pouco de tudo.
- Bem, não exageremos. Fiz o que foi preciso, quando foi preciso!
- Pois foi, sim senhor. Olha, temos visitas.
- Ai temos?
- Iapp. Um amigo meu.
- Um "amigo" teu??? - Myra dissera isto com um toque de ironia - e quem é o teu "amigo"?
- Frank. E não comeces. Conheci-o há uns tempos num dos jantares lá do edifício onde trabalho, e ficámos amigos. Um tipo interessante. Pode parecer um bocadito presunçoso, mas é boa pessoa. Damo-nos muito bem.
- Ai sim?
- Sim, My. Mas não faz o meu tipo de homem, se é isso que estás a pensar. Assim que o conheceres vais perceber porquê.
- Está bem, está bem. Já percebi. Se se passasse alguma coisa já me tinhas dito. Sei disso. Estou só a meter-me contigo.
- Sempre a mesma, My...
Myra riu-se, encolhendo os ombros. Realmente, sempre tivera o vício de juntar casais. Era muito casamenteira, e tinha previsto alguns dos romances dos seus colegas e amigos. Verdade seja dita, também tinha previsto algumas rupturas desses casais...
- A que horas temos cá o teu amigo? - perguntou Myra a Ann quase gritando, uma vez que esta que estava na outra ponta da casa a arrumar as compras que trazia consigo.
- Deve estar aí a chegar. - respondeu Ann, no mesmo tom.
- E vem para jantar?
- Vem. Mas não te preocupes, que já estou a tratar disso.
- Ok, deixa-me só aqui acabar uma página que já te vou ajudar.
Paasados uns minutos, Myra foi ter com Ann à cozinha.
- Olha lá, tenho que ir vestir alguma coisa mais formal para jantar, ou o teu amigo Frank é um tipo porreiro e não se põe a olhar de canto??
- Estás muito bem, My. Não te preocupes. Eu é que tenho que ir mudar de roupa num instante.
- Uuuiiiii...
- Myra, só vou vestir uman camisola lavada!!!! Estou a encher-me de nódoas a fazer isto, e não tem piada nenhuma receber visitas com este ar javardo!
- Ok, ok.... então e o que vamos ter para o jantarinho, cara chef?
- Coisa rápida.
- Ena, vamos mandar vir pizzas!!!!
- Não, Myra - disse Ann, rindo - Um carilzinho de gambas. Indian style.
- Boaaaa!! - Myra parou de repente - Espera lá... mas desde quando isso é uma coisa rápida de se fazer???
- Desde que eu tenho tudo pronto, é só juntar as gambas, quase.
- Estou enganada, ou tu já tinhas isto planeado????...
- MYRA!!! - Ann parou, de faca em riste, olhando ironicamente para Myra - Claro que estás enganada. Aliás, muito enganada. Insinuas que tenho algum interesse no Frank, mas de facto convidei-o mais por tua causa.
- Nãoooo!!! Ouve lá, a casamenteira aqui sou eu. Não há lugar para duas nesta casa! - disse Myra, rindo.
- Eh, eh, eh. Não é isso. Tu chegaste aqui agora, precisas de amigos. Eu empresto-te os meus!
- Ah, Annie, o que seria de mim sem ti - Myra dissera isto num tom irónico - Então quando o Frank chegar, podemos ir jogar às escondidas lá para baixo para o jardim?? Ó deixa, vá lá!!!!!!!!!!
Ann ria com vontade da expressão de Myra, que tinha tomado a postura de uma criança pequena a pedir algo à mãe.
- Está bem, My. Mas depois comes a sopa toda. - Disse, sorrindo maternal e ironicamente.
- Ena!!!!! - E Myra desatou a correr aos pulos pela sala, como se não tivesse mais que seis anos, catarolando.
Tocou a campaínha, em dois toques seguidos e curtos.
- My, atende aí, deve ser o Frank.
- Sim, Ann, eu abro a porta ao nosso príncipe e seu corcel alado - disse, ironizando.
- Ai, espero que ele não traga o corcel alado - Ann alinhara na ironia - não sei se há comida que chegue!
Myra parou de correr, endireitou a roupa, sacudiu o cabelo (reparou que Ann tinha passado a correr pela sala, provavelmente para ir trocar de camisola) e chegou-se ao interfone.
- Siiim???
- Ann?
- Não. - disse Myra, sustendo um risinho.
- Aaaaa.... mas é da casa da Ann, certo?
- É capaz de ser.... espere aí que eu vou ver - Myra decidira realmente gracejar.
- Mas... - ouvia-se do outro lado do interfone; era uma voz firme, forte, que caía bem no ouvido.
- É sim senhor, que eu já fui ver. E quem quer saber?
- Frank. A Ann está, por favor?
- Olá Frank!!
- Olá... - pela voz, o interlocutor do interfone estava intrigado com aquela conversa. Não era para menos...
- A Ann está, mas foi lá dentro mudar de camisola, vem já.
- Pois... eu tinha combinado com ela para jantar...
- E suponho que queira entrar, não é? - só depois Myra reparou que o tinha tratado por você...
- É, realmente, é isso.
- Então está bem. Suba. - e Myra carregou no botão que abria a porta do prédio, por um lado achando piada à conversa que acabara de ter com o amigo de Ann, por outro lado pensando se não tinha abusado... afinal ela não conhecia Frank, e não tinha meio de saber se ele seria pessoa para achar graça àquelas coisas, que no fundo eram tão infantis.
Enquanto Frank subia, Myra gritou para Ann, que ainda estava no quarto a vestir-se:
-ANN!!! O teu amigo tá quase aqui à porta! Então??
- Recebe-o, que eu já vou. - Ann parecia responder do fundo de um poço...
- Está bem. Olha, ele não morde, pois não??
- Não, só quando o irritam ou quando está com fome!!
Ambas diziam isto e riam como cranças pequenas.
Tocou novamente a campaínha, desta feita a da porta de casa, e Myra espreitou pelo olho mágico da porta. A imagem era distorcida, mas Frank parecia ter muito bom aspecto. "Ui, tão giro! Ann, tu e o teu excelente gosto para homens....", dissera baixinho.
Abriu a porta.
Frank era um rapaz alto, trinta e poucos anos, moreno; possuía uma figura elegante, mas era muito bem constituído (havia por ali indícios de frequência de ginásio, foi a ideia que ocorreu a Myra, ma non troppo); Vestia informal e confortavelmente, mas denotava-se o bom gosto a kilómetros: qualidade, apresentação e classe, devia ser a sua máxima. Era o tipo de homem que esbanjava charme, na mesma medida, quer vestisse um fato Armani, quer calças de ganga e camisa por fora, como era o caso. Impreterivelmente, Myra fez de relance uma pequena tentativa de vistoria às meias do convidado. "Bem, brancas não são", pensou, divertida (peúgas brancas, Pé-de-gesso, meínha de ir à missa....era coisa que abominava nos homens!...).
Ele exalava um perfume que Myra conhecia e gostava muito (Myra tinha por hábito analisar os homens também pelo seu tipo de perfume...), e estava impecavelmente barbeado ("acabadíssimo de sair do banho", pensou Myra); tinha umas mãos bonitas, grandes, e não usava adornos, apenas um relógio simples, discreto.
O rosto de Frank era bonito, prendia a atenção: boca carnuda, olhos grandes, castanhos, pestanudos, pele bem tratada. Tinha um ar simpático, mas ao mesmo tempo altivo. "Interessante," pensou Myra, "muito interessante, sim senhor".
- Com licença - Disse Frank, olhando com uma certa desconfiança para Myra - Tu deves ser a Myra, certo?
- Certo, Frank.
- Ah, Já sabes o meu nome e tudo.
- É, eu sou muito inteligente... E a Ann é realmente muito cuscivilheira. - disse Myra, num sorriso largo.
- Muito prazer - e Frank abriu um sorriso que Myra achou lindo, perfeito, e cumprimentou-a com dois beijos nas faces. Myra achou-o forte e carinhoso ao mesmo tempo, pela maneira como a puxou para a cumprimentar - Então e a Ann??
- Estou aqui, Frank. - Ann surgira nesse momento na sala. Ainda não acabei o jantarito, por isso faz o favor de te sentares e fazeres companhia aqui à minha amiga Myra. Acho que se dispensam apresentações, não é?
- Já passamos a fase dos nomes e do beijo na cara, se queres saber - disse Frank, sorrindo. Myra corou um bocadinho, e conduziu Frank até aos sofás e ligou a TV. .
- Senta-te, Frank, está à vontade. Bebes alguma coisa? - disse Myra, diligentemente.
- Não, obrigada, eu espero pelo jantar. Estou para ver que coisa esquisita é que a Ann vai cozinhar hoje.
- Ahh! Pois, já conheces os cozinhados exóticos aqui da nossa amiga... - na realidade, Ann pouco sabia de cozinha convencional... - tens que abrir um restaurante, Ann. Ganhavas uma pipa de massa.
- Só quando quiseres ser a minha maître, My. Quanto ao jantar de hoje, Frank, é como de costume: depois vês. Bem, meus queridos, com licença, que tenho as panelas à minha espera.
- Ok, chef Annie, não te preocupes q eu trato bem da nossa visita. - Disse Myra, rindo, com uma pronuncia exageradamente francesa.
Ann riu-se, disse um sonoro "Oh, Voilá!!!!" e desapareceu para dentro da cozinha.
Bluerussian

quarta-feira, agosto 30, 2006

Fresh red roses

Coisas que acontecem.
De facto, há coisas na vida que surgem do nada, instalam-se, mudam tudo o que existe e ficam. Provavelmente para sempre. E felizmente para nós.
Num dia, estando nós a gozar a nossa existência, mais serenamente ou não, mais feliz ou menos, somos surpreendidos pelo próprio destino, que nos põe à frente, assim de repente, um mar de hipóteses, novas e absolutamente irresistíveis; o que temos diante dos olhos é a possibilidade de mudar tudo aquilo em que acreditávamos até aí, e seguir um novo trajecto. Estranho, assustador, desconhecido, mas absolutamente irresistitível. Sem olhar para trás, sem reservas e sem medo, entramos nessa àgua morna do destino, e submergimo-nos sem sequer notar que a àgua que nos inunda os pulmões é o nosso novo oxigénio.
Sem medo.
Sem dúvida.
Entregamo-nos às mãos do destino como uma criança se entrega às mãos dos pais. Porque sabemos com toda a certeza que é exactamente isso que estava reservado para nós. Sabemos que é aí que reside a nossa felicidade.
Por muito que tenhamos questionado a nossa própria sorte, deparamo-nos com a mais límpida e absoluta certeza de que o que queremos é exactamente aquilo que temos diante dos olhos.
E porque não agarrar o destino? Seria um profundo erro deixá-lo fugir, inutilizando-o.
Só teríamos a perder com isso.
Tempo?
Relativo. Não se colocam prazos à felicidade.
Mais ou menos tempo, a alma e o ser ditam os momentos certos.
Não os relógios, nem os calendários.
Agora sei isso, M.

sexta-feira, agosto 18, 2006

"O mendigo Sexta-feira jogando no mundial"

"(...) O que me inveja não são esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me antender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)
Mia Couto, in "O fio das Missangas"

segunda-feira, agosto 14, 2006

Aquela Palavra

Há palavras vãs. Há palavras sem sentido, ditas à pressa e sem olhar a quem. Há palavras das quais temos medo, e outras que nos irritam. Mas também há palavras que nos fazem pairar no limbo do sonho, quer quando as dizemos, quer quando as ouvimos.
São palavras, e podem valer mais que os actos. Ou não, talvez às vezes não.
Dizer aquilo que vai na alma pode ser tão acutilante e tão definitivo como qualquer acto. Uma promessa, uma jura, um pedido, a expressão de um sentimento, podem gerar todo um mar de emoções, que podem determinar a felicidade, ou a falta dela, a quem as ouve.
"Palavras leva-as o vento". Não, algumas, não leva. Algumas, ficam gravadas na alma a ferro e fogo, e marcam toda uma existência a partir do preciso momento em que são proferidas e ouvidas.
Muitas vezes, têm a particularidade de marcar duas vidas em simultâneo.
Como Aquela Palavra.
Aquela, ontem. Tu sabes.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Razão perdida

Noite que se faz dia, maré de lua,
dia que amanhece para anoitecer;
Luz de seda, madrepérola,
voz de veludo,
força bruta que arrebata a razão.
Anel de fogo que incendeia a alma
furacão que alimenta a minha sede de ti.
Pele que chama.
Olhar que se fecha.
Sangue que grita...
Num turbilhão de brisas,
a ansia de um simples gesto.
Áurea de brilho intenso,
procura o colo macio da paixão,
tentando calar o clamor que cresce no peito.
Bluerussian

sábado, agosto 05, 2006

Pensou

Pensou.

Que o mundo tinha mudado,

assim como o seu próprio destino. Achou que a cor deixara de ser translúcida. Quis, por um momento só, que fosse assim. Fechou os olhos e sentiu a brisa quente do fim do inverno, Sentiu o limbo envolvente da paz de espírito. Mas não. Acordou um dia e, abrindo os olhos, viu que não. O mundo estava lá. Frio e presente, envolvendo-a como um pesado manto. Sempre esteve, e não deixará nunca de estar. Não se admirou. No fundo, sabia que era assim. Acreditou apenas que podia ser diferente. 5 Abril 2006

segunda-feira, julho 31, 2006

Myra #4. Ann

Myra chegara ao seu destino, a morena de laranja ainda seguia viagem.
Distraída com a conversa, Myra quase que não prestava atenção aos avisos que soavam pela carruagem, a cada estação ou apeadeiro. Mas num pequeno momento de silêncio, raro entre aquelas duas passageiras, Myra lá ouviu proclamar em voz rouca e gutural o nome do seu destino.
Depois de uma despedida atabalhoada, Myra agarrou na sua mala, e saiu do comboio. Parou no meio do átrio da estação, pousou a mala, e olhou para ambos os lados. Sempre gostara daquele turbilhão de gente a sair e entrar das estações de comboios, nas horas de chegadas e partidas. Sentou-se em cima da mala e esperou, de olhar perdido e pensamento no infinito.
- Myra!!!!
Tinham passado cerca de 20 minutos. Aquela voz, ainda que não a ouvisse havia muito tempo, era-lhe bem familiar.
- Annie!!!!! – e Myra levantou-se e desatou a correr na direcção de quem a chamava – Caramba, pensava que nunca mais te via!!!
Lá estava ela, a sua amiga Ann, que conhecera, havia uma eternidade, nos tempos de faculdade. Abraçaram-se com força.
Ann era uma mulher muito bonita mesmo, mas de uma beleza que tinha tanto de discreta como de incadescente. Era ruiva, de cabelos rebeldes, pele branca, mas não pálida, e olhos castanhos esverdeados. Como era já meio da primavera, começava, a aparecer sardas no rosto dela, o que lhe dava um ar traquina. Parecia uma miúda, apesar dos seus quase 30 anos. Nos tempos de faculdade, quando Myra a conhecera, Ann era quase gordinha, usava óculos e vestia roupa muito larga, mas o tempo tinha-a feito uma mulher de excelente compleição física, com um porte absolutamente elegante. Vestia-se de forma muito simples, o que não chamava grande atenção sobre si. Mas de facto, quando se olhava bem para ela, não se conseguia mais desviar o olhar - um rosto perfeito, simpático, sorridente, doce e altivo ao mesmo tempo, uma atitude positiva, segura, uma aspecto cuidado e negligé, ao mesmo tempo, bom gosto. Nestes últimos anos, quando estava na companhia de Ann, Myra divertia-se a reparar nos homens que inevitavelmente olhavam segunda vez para ela, Ann - era sempre assim: passavam, olhavam distraídamente, desviavam o olhar, mas voltavam sempre a cabeça para olhar de novo. Havia qualquer coisa em Ann que chamava discretamente a atenção, e era difícil definir exactamente o quê. É como se a rodeasse uma aura de qualquer coisa de muito positivo, sempre.
Nos tempos da faculdade, ainda Ann não chamava tanta atenção sobre si, conhecera aquele que era o amor da sua vida, e com ele ficara até então. Eram felizes, divertidos, amorosos, ambos. Perfeitos um para o outro. Myra adorava a companhia deles, e aguardava o esperado casamento no ano seguinte.
- Annie, pá, tinha mesmo saudades tuas!!!
- Oh, amiga, também eu! Deixa-me olhar para ti. – e chegou-se para trás, para poder observar Myra da cabeça aos pés – Sempre na mesma!! Gira como sempre!!!
- EEEhhhh!!! Parva. Tu é que estás impecável!
- Deixa-te de salamaleques. Vamos mas é embora daqui, que estás com cara de cansada e com fome.
- Por acaso. Bem, mas tem sido uma viagem cheia de coisas engraçadas.
- Ok, vai contando, mas vamos andando para o carro.
E enquanto se dirigiam para o carro de Ann, entravam e arrancavam dali, Myra foi contando os seus episódios daquele dia.
Depois de muito blábláblá sobe o rapaz da camisola cinzenta, o bar da estação e a morena de laranja, Ann começou à procura de um sítio para estacionar, uma vez que já estavam a chegar perto de sua casa.
- Bem, Myra, fiquei mesmo surpreendida quando me disseste que querias vir para cá. E ainda bem que vieste, vai ser muito bom ter-te por perto de novo, mas vais ter que me contar o que se passou, para te fazer deixar tudo para trás e mudar de cidade!
- Depois conto, Annie. Neste momento ainda não sou lá muito capaz de falar sobe o assunto... e obrigadão pela estadia. Prometo que assim que arranjar um emprego e depois poiso para mim, vos deixo em paz.
- Ah, nem penses nisso; ainda por cima, já não é “nós”. Sou mesmo só “eu”, lá em casa...
- Hã!!!???
- É isso mesmo que tu ouviste.
- Não pode!!! Mas e o teu “mais-que-tudo”, o homem da tua vida, o teu futuro marido? Que raio se passa?
- Ora... o costume.
- Ann, estou a falar a sério. O que se passa? Vocês não iam casar para o ano?
- Íamos, disseste bem. Já não vamos. Chegou ao fim, foi o que foi.
- Annie, como é que uma relação de 5 anos chega assim ao fim? Vocês eram o casal mais perfeito que alguma vez conheci. Sempre superaram as vossas pendengas, e gostavam imenso um do outro. Viviam juntos, e estavam tão bem!! Que raio se passou?
- Pois era assim, mas desta vez foi demais.
- ihhhhh, já vi quem pôs a pata na poça...
- E viste muito bem.
- Mas e então, que foi que ele fez?
- Vamos subir, que já te conto, não é preciso ficarmos aqui na rua a conversar.
- Ai que raiva! Só tu para matares uma pessoa de curiosidade, assim. Vamos lá.
E saíram do carro, entrando depois no prédio onde Ann morava, e no elevador. Como o elevador levava mais pessoas, vizinhos, e elas não falavam.
- Vá, desbobina. – disse Myra, impacientemente, logo que entraram na casa de Ann.
- Vamos para a cozinha, que vou fazer umas sandes para nós.
- GGGRRRRRR!!! Que raiva! Só estás a engonhar!
- Vá, vamos lá. – e foram. E enquanto preparavam alguma coisa para comer, continuavam a conversa.
- Pois é, Myra, lembras-te de eu ter dito que ele tinha conseguido ser aceite para dar aulas na Universidade?
- Sim. E depois?
- Fiquei contente, assim podíamos começar a organizar a nossa vidita.
- Claro.
- É. E estava a correr tudo muito bem, até que ele se envolveu com uma aluna. – Ann dissera isto de cabeça baixa, olhos postos no chão.
- Não! Não pode ser. Ele era a última pessoa que eu imaginaria capaz disso.
- Verdade, verdadinha. Eu também acreditava que ele era diferente, mas no fundo, são mesmo todos iguais.
- Mas como soubeste disso?
- Olha, descobri da maneira mais parva.
- Conta!!!
- Dia dos namorados, estás a ver? Achei na pasta dele, por acaso um cartão cheio de coraçõezinhos, assinado por ela. Coisas típicas de miúdas. Mas fiquei desconfiada.
- Coisa mais pirosa.
- Pois, mas pelo visto ele gostava, já que guardou religiosamente o cartão.... bem, como fiquei com a pulga atrás da orelha, foi uma questão de começar a ficar mais atenta. Internet até às tantas, “aulas” até tarde, telefonemas que ele não atendia ao pé de mim, pérolas dessas... cheguei ao ponto de lhe fiscalizar o telemóvel e os e-mails. Não é que me orgulhe disso, mas eu tinha que ter certeza!
- E quando tiveste essa certeza?
- Há coisa de 3 meses, achei que já tinha visto e lido o suficiente sobre aquele romance, e fartei-me de assistir de camarote. Confrontei-o.
- Ena! E ele?
- Negou, claro. Mas quando lhe disse o que sabia, ele não teve hipótese.
- Os homens, realmente....
- Eu não podia continuar com ele. Era insustentável. Ele ainda tentou voltar, desculpar-se, atribuir as culpas à miúda... mas isso ainda piorou as coisas.
- Calculo que sim. Eu também pensaria assim. Mas caramba, vocês tinham uma relação tão bonita...
- Que acabou, e não da melhor maneira, paciência. E assim, cá estou eu, solteiríssima de novo.
- Que é feito dele?
- Ora, saiu de casa, mas penso que vive sozinho, ainda.
- E hipóteses de uma reconciliação??
- Nunca. Tu conheces-me. Sabes muito bem que não volto atrás nestas coisas.
- Mas, ouve lá, amiga, tu estás bem?
- Conformada, pelo menos. Não posso esquecer um homem que amei perdidamente durante 5 anos e com quem imaginei o resto da minha vida, não é?
- Pois, provavelmente... Mas olha: agora estou cá eu. Estamos juntas, e vai ser como nos bons velhos tempos, amiga – e Myra abraçou Ann – vamos esquecer essas coisas em três tempos!!!
- AHHH!! Então a causa desta tua fuga tem moço metido nisso....
- Inevitavelmente, não é? Mas isso é outra conversa. Deixa-me digerir esta tua novidade, primeiro...
- Mas não me escapas, que quero saber tudo.
- A seu tempo, amiga, a seu tempo.
Bluerussian

terça-feira, julho 25, 2006

Deixa-te ficar na minha casa

Tenho livros e papéis,
Espalhados pelo chão.
A poeira de uma vida
deve ter algum sentido!
Uma pista, um sinal,
de qualquer recordação,
uma frase onde te encontro
e me deixa comovido.
Guardo na palma da mão
o calor dos objectos,
com as datas e locais,
porque brincas, porque ris...
e depois o arrepio,
a memória dos afectos...
que me deixa mais feliz!
Deixa-te ficar na minha casa,
há janelas que tu não abriste...
O luar espera por ti,
quando for a maré vaza...
ainda tens que me dizer
porque é que nunca partiste.
Está na mesma esse jardim,
com vista sobre a cidade,
onde fazia de conta
que escapava do presente...
Qualquer coisa que ficou,
que é da nossa eternidade...
Afinal, de eternamente.
Filarmónica do Gil

sexta-feira, julho 21, 2006

Myra #3. A viagem no comboio

- Posso?
- Força. - disse a morena de laranja, mexendo-se no banco, como que para permitir a passagem de Myra, o que não era preciso, pois os bancos marcavam precisamente o meio da carruagem, e estavam em frente uns aos outros, pelo que havia entre eles um espaço mais largo.
Myra sentou-se no seu lugar, em frente à morena de laranja. Ajeitou-se no banco, instalou a sua mala de mão aos seus pés, recostou-se no banco.
Era bonita, a morena de laranja. Myra tinha já reparado, no bar da estação, que ela era interessante, mas agora que estava em frente a ela, dava conta de uma beleza exótica, um pouco selvagem, mas que tinha tanto de natural como de exageradamente produzido. Era uma rapariga com cerca de 1,60, um corpo roliço mas musculado, uma pele morena de um tom dourado, bonito, mas excessivamente oleado. Exalava um perfume forte, quente, enjoativo, mas que lhe ficava bem, chamava a atenção sobre ela. Tinha um rosto redondo, uma boca carnuda e bem delineada - um sorriso muito bonito, diga-se, que mostrava uns dentes razoavelmente brancos – um narizinho perfeito, e um olhar – e que olhar! – absolutamente matador. Uns olhos negros, amendoados, rasgados, pestanudos; um olhar fixo, decidido, profundo e penetrante. Daquelas pessoas que parecem nunca ter olhares vagos, perdidos. Negros eram os seus cabelos - pintados ou não, Myra não o poderia dizer – ondulados e rebeldes, compridos, ligeiramente secos e cheios de espuma de pentear, cujo cheiro se misturava como do seu perfume.
Pena a roupa – um outfit um tanto ou quanto já fora de moda – um vestidinho de Lycra muito justo e muito curto, num laranja quase fluorescente, um decote vertiginoso, que deixava, intencionalmente, pensou Myra, completamente exposto um soutien, wonderbra sem dúvida, que lhe juntava os seios, nem muito grandes, nem muito pequenos, ao centro do decote. Sentada como estava, cruzando as pernas e inclinando-se ligeiramente para a janela do comboio, levantava ligeiramente uma das coxas mais do que seria publicamente aceitável, deixando à vista, na sua totalidade, umas pernas firmes, musculadas e impecavelmente depiladas. Trazia calçadas nos seus pezinhos pequenos e perfeitos umas sandálias altíssimas, tipo anos 60, em vinyl, com salto grosso e plataforma, exactamente da cor do vestidinho. A compor o ramalhete, um colar de pedras pequeninas pretas e brilhantes, que terminava milimetricamente no meio dos seus seios, e que fazia pendant com os seus brincos, compridos até aos ombros, e que se distinguiam do seu cabelo apenas pelo brilho maior das referidas pedras.
- Era só o que me faltava!!!!
Uma senhora de cabelo muito alto e blusa de seda azul-turquesa estava parada no corredor da carruagem, de braços cruzados e olhando quer para a morena de laranja, quer para Myra.
- Não me bastam as poucas-vergonhas à minha porta, agora ainda tenho que viajar ao lado destas! Era só o que faltava! Ó senhor revisor!
A senhora do cabelo alto já esbracejava, e o revisor corria já pela carruagem fora, na sua direcção. A morena de laranja estava absolutamente calma, apenas se notando um certo ar de desdém pela situação – olhava para a senhora do cabelo alto como se esta situação não a surpreendesse minimamente. Myra, por sua vez, estava espantadíssima, e não tinha a mínima ideia do que estava a acontecer.
- Ó minha senhora, tenha calma. – disse o revisor, esbaforido – O que é que se passa?
- Quero que me arranje outro lugar. Recuso-me a viajar ao lado destas mulheres de baixo nível. Sou uma senhora.
- O quê???? - Myra estava estarrecida.
- Deixa estar – sussurrou-lhe a morena de laranja – não adianta discutir com ela.
- Venha comigo, minha senhora, não se exalte, venho comigo. – já o revisor levava a senhora do cabelo alto, delicadamente, por um braço, pelo corredor da carruagem. Ela continuava a barafustar, mas lá foi.
- Mas o que foi isto? – perguntou Myra.
- É o costume. Esta nem é a única que faz estas cenas. Desculpa lá teres sido metida ao barulho. A conversa era comigo. Ela viu-te aqui pensou que estavas comigo, levaste por tabela. Desculpa lá.
- Mas quem raio é esta mulher?
- É simples. Esta mulher mora perto do sítio onde eu trabalho.
- E? - Dado que Myra tinha ficado com a impressão que a morena de laranja era prostituta, interessou-se pela conversa, vislumbrando a razão da raiva da senhora do cabelo alto.
- E acontece que eu trabalho na rua. De noite, percebes? Sexo por dinheiro. ‘Tás a ver?
- E o que tem isso a ver com esta mulher?
- Eu não gosto de trabalhar em sítios desertos, por isso escolho sítios onde morem pessoas. Sempre pode haver alguém que chame a bófia se ouvir gritos, sei lá. E esta mulher mora num sítio onde eu costumo “atacar”.
- Estou a ver.
- Já não é a primeira que faz cenas destas. Acontece em todo o lado: no supermercado, no centro comercial, esta malta acha que não podemos respirar o mesmo ar, ou lá o que é....
- Que estupidez.
- É. Mas uma pessoa habitua-se a viver com isso. No início a vergonha é lixada. Mas depois passa. Eu percebo que estas gajas tenham medo.
- Medo de quê?
- Elas sabem que os maridinhos delas nos visitam, e muito. Mesmo que não queiram saber deles, não querem ficar sozinhas. É mau para o social, ser largada, especialmente por causa de mulheres de rua.
- Tu deves ter uma vida difícil, não?
- Leva-se. Já foi pior. Eu até gosto do que faço, às vezes.
- Mas assim, na rua... não tens medo?
- Já tive. Mas agora tá melhor. A bófia vai passando, também.
- Posso perguntar-te como foste parar a essa... vida?
- Podes perguntar, que eu respondo: casei muito nova.
- Hã??? E que raio isso tem a ver?
- Casei aos 16 com aquele que pensei que era o homem da minha vida. Afinal, acabou por ser o homem que me põs na vida... 2 anos de casamento depois, começou com umas conversas e tal, que queria trazer uns amigos a casa, e tal, assim para umas maluqueiras na cama...
- Não pode!!!
- Pode. Eu até gostava da ideia, que eu cá sempre gostei muito da paródia – e ela dizia isto com um arzinho muito malandro – e no princípio teve piada. Mas depois, o meu querido marido deixou de participar na paródia, e eu depois percebi que ele recebia dinheiro dos amigos... e depois deixaram de ser só amigos e passaram a ser gajos ao calhas... o gajo vendia-me como se vendem trapos na feira.
- E tu aguentavas isso? Não te recusavas? Permitias?
- Pá, no princípio eu até achava graça, e olha, o dinheiro dava jeito. O pior foi quando ele quis que eu fosse para a rua, que não queria continuar aquilo em casa. Ameaçou-me, quando eu disse que recusava. Batia-me e tudo.
- A sério? E não fizeste queixa? Deixaste que ele te batesse? Continuaste com ele? Porque não o deixaste????
- Eu ainda gostava dele, na altura. Eu casei por amor, sabias?
- Como se isso justificasse o que ele te fez....
- ‘Tá feito, ‘tá feito.
- E continuas casada com ele??
- Não. Ele houve uma altura em que arranjou uma amante, e eu disse-lhe que não queria ser mulher dele. Podia continuar na rua por conta dele, mas queria o divórcio. Ele nem pensou duas vezes.... divorciámo-nos, mas eu continuei “na função” para ele.
- E nem assim te livraste dele?
- Ele na altura era mais violento. Dava medo. E o dinheiro sabia bem. Pena que ele ficasse com uma parte tão grande. Hoje estava rica. Mas hei-de conseguir.
- Caramba. Mas não pensas em deixar a profissão?
- Às vezes, mas também não sei fazer mais nada. Eu até pensei que ele se enrabichasse por outra e me deixasse em paz... mas só agora é que ele arranjou outra para a pôr a render. E não vai ficar por aqui. Mas se eu tinha medo dele, agora já não tenho. ‘Tou a fazer o um pé de meia, e ele nem sonha. Assim que tiver o suficiente, piro-me e ele nem nunca mais me põe a vista em cima. E vou fazer rios de dinheiro. Eu sou uma artista, sabes?
- Artista como?
- A mim não me interessa ser só um objecto usado pelos gajos. Gosto de os ver aos meus pés. E também gosto de dançar, e olha que danço muito bem. Eles ficam malucos. E pagam mais. Tenho safo uns trocos valentes.
- E fazes isso em segredo...
- Tenho feito, aos poucos. Só a minha colega sabe.
- Colega?
- Sim, a outra que ele arranjou para explorar.... fraca, ‘tadita. Também gostava dele. Ela já andava nas ruas, quando ele a conheceu – ele prometeu-lhe protecção, conforto... coitada. É muito medrosa, também, e tenho medo que ele aperte com ela por minha causa, e ela bufe tudo. Ele adora aterrorizá-la. Comigo já não consegue fazer isso.
- Como consegues esconder essas tuas actividades dele?
- Tem dado, porque o que lhe interessa é o dinheiro. Tenho que lhe dar algum, e ele fica contente. Hoje, por exemplo, disse-lhe que vou fazer 2 clientes a um hotel. Mas vou dançar para uns gajos, que pagam mais pela dança do que pelo sexo. Depois, se houver mais negócio para fazer... faz-se.
- Mas não deixas a rua...
- Para já, não. Mas vou deixar, quando fugir dele, e puder viver só das danças.
- A vida na rua deve ser horrível.
- Uma ‘cadito dura. Não ter protecção é muito mau.
- Sabes, eu sou a favor dos bordéis, legalizados, com condições, etc.
- Não são maus, e a segurança era maior, sim, mas a gente por conta própria ganha mais, e depois ninguém ia querer ser visto a rondar um bordel. Na rua, ou nos hotéis, é mais discreto, para o cliente.... E eu sou muito limpa, no meu trabalho. Os meus clientes não apanham cá doenças. Mas que deviam legalizar a profissão, deviam.
- Mas não tinhas que andar na rua.
- Ora, eu vou sair das ruas à mesma, logo que possa. Estou a juntar mesmo uns trocos para me tratar, e ficar impecável para a minha nova profissão.
- Tratar?
- Sim, sabes, cabelo, pele, dentes, emagrecer um ‘cadito, pôr um silicone, comprar umas roupas como deve ser, aprender estrangeiro... faz falta. Quero ser uma estrela.
- Valorização pessoal. Isso é óptimo.
Myra estava absolutamente extasiada com esta personagem que falava pelos cotovelos. Durante mais hora e meia, a morena de laranja contou muito da sua vida, do métier, dos clientes, etc. Myra fazia perguntas, dava opiniões, e ficou fã da sua interlocutora. Quando se despediram, no final da viagem, Myra pediu o número de telefone à morena de laranja, ao que esta acedeu, não sem um “mas olha lá que eu mulheres não faço, hã!!”, em tom divertido.
Bluerussian